segunda-feira, 13 de julho de 2015

MILTON LUCENA – O soldado da borracha que impulsionou o comércio acreano

12/07/2015 01:00:39
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Ele chegou às cabeceiras do Rio Iaco, em Sena Madureira, junto com os pais e outros cinco irmãos, em 1942, início da Grande Guerra, como foi apelidada a Segunda Guerra Mundial pelos nordestinos.
A família, procedente da cidade de Quixadá, no Ceará, não estava só. Ao menos 50 mil nordestinos, castigados pela seca e sem perspectiva alguma, foram facilmente atraídos pela promessa de terra e trabalho na Amazônia.
O recrutamento foi feito pelo presidente Getúlio Vargas, que bancava todos os custos da viagem e ainda fornecia uma espécie de auxilio de instalação para os gastos iniciais.
A missão dos recrutados na verdade era suprir as fábricas nos EUA com látex, na ocasião essencial à confecção de material bélico. Assim, apesar de não fazerem uso de fuzis como os soldados de guerra, os nordestinos travavam outra batalha, a da Borracha.
De acordo com os registros históricos, pelo acordo firmado, o governo dos Estados Unidos pagava ao governo brasileiro cem dólares por cada soldado da borracha entregue na Amazônia.
É na condição de soldado da borracha, aos 17 anos de idade, que o cearense Francisco Milton Lucena chega ao Acre em 05 de janeiro de 1942. O jovem Lucena é o mais velho dos seis filhos (dois homens e quatro mulheres) do casal Levi Augusto Lucena e Isabel Ferreira Souza.
A viagem de Quixadá a Sena Madureira durou aproximadamente dois meses. Do Ceará ao Maranhão o percurso foi por terra e de lá até o Acre de barco. Detalhe: o patrocínio da viagem era só de vinda, sem volta.
– Meu pai tinha uma pequena fábrica beneficiadora de algodão, mas depois de três anos sem chuva no nordeste, seca das brabas, não tinha mais produção para vender, então a esperança era vir para a Amazônia-, relata.
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O primeiro seringal
Em Sena Madureira, a família Lucena foi instalada no último seringal do Rio Iaco de nome Guanabara. ‘’Nós viemos preparados para fazer o que era preciso. Na condição de filho mais velho tinha que seguir os passos do meu pai e ajudá-lo na extração do látex’’, frisa.
O jovem Lucena não tinha a menor idéia do que era o trabalho no seringal e dos muitos riscos que envolvia. Muito menos que milhares de nordestinos iriam tombar sem colocar as mãos na almejada fortuna do ouro branco.
– Todo mundo sabia que o trabalho na Amazônia era o corte de seringa, mas a realidade pintada na propaganda era bem diferente. No nordeste não tinha mata, não tinha onça, nem o mosquito da malária. Era realmente uma guerra-, assegura.
Depois de quatro anos de trabalho no Guanabara, a família Lucena se muda para o seringal Sacado, mais próximo de Sena Madureira. Já maior de idade, Francisco Lucena começa a viajar até a cidade em busca de diversão, como todo jovem solteiro da sua idade.

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Constituindo família

– Era tempo de carnaval, passando pelo seringal Santa Clara percebi que tinha muita moça por lá, ai fui conhecendo e acabei casando com uma delas-; registra.
A jovem que fisgou o coração de Francisco Lucena era Odete D’Ávila, com que está casado há exatos 64 anos. A data da união ele faz questão de registrar: 30 de junho de 1951.
– Foi a partir daí que eu comecei a ganhar a minha vida. O meu sogro Antônio Marques D’Ávila me convidou para trabalhar no seringal Novo Areal, próximo ao seu, trabalhava na administração do pessoal, e assim fiquei mais uns cinco anos-; conta.
O sofrimento decorrente do trabalho precoce como soldado da borracha, não conseguiu ofuscar o espírito empreendedor de Francisco Lucena. E apesar da prosperidade que começa a experimentar como administrador de seringal, ele decide mudar radicalmente o ramo de negócios.
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Padaria em Sena Madureira

– Nasci na cidade, então a gente nunca esquece das necessidades, lá dentro da mata era diferente, então eu vendi tudo que tinha lá no seringal e comprei uma padaria em Sena Madureira. Já tinha comprado casa, só queria o necessário para tocar no negócio-, lembra entusiasmado.
Era apenas o inicio da trajetória do comerciante que iria marcar significativamente a economia acreana a partir da década de 70. A mudança do seringal para Sena Madureira aconteceu em 1960. Na ocasião já havia nascido dois dos cinco filhos do casal.
O nome do estabelecimento não poderia ser outro: Padaria Lucena. O negócio flui bem, mas a vida difícil no seringal aguçou a visão empreendedora de Lucena.
Ele percebeu que o fornecimento de estivas em geral nas regiões mais isoladas poderia ser um excelente negócio. É quando em 1963 toma a decisão de mudar para Manaus, no Amazonas, e alavancar seus negócios.
A mudança para Manaus
A família está formada, Lucena e Odete seguem para a capital amazonense com os cinco filhos: Odenilton (advogado), Sônia (médica), Francisco Airton (engenheiro), Hamilton (administrador), Francisco Milton Lucena Filho (pecuarista). Os dois primeiros nascidos no seringal e os demais em Sena Madureira.
– Chegando a Manaus as crianças já estavam na época de estudar, então matriculei todo mundo, porém, só conseguir formar três. A oportunidade foi dada a todos, quem quis estudar, estudou-; ironiza.
A permanência de Milton Lucena no Amazonas durou de 1963 a 1970. Nesse período ele comprou embarcação e iniciou o transporte de mercadorias do Amazonas para o Acre.
Segundo ele, o Rio Acre era navegável e por suas águas cruzavam grandes embarcações. ‘’A BR até Porto Velho ainda não era asfaltada, então era tudo por água, a vida das pessoas girava em torno do rio’’, constata.
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Lançamento da Coca-Cola no AC

Durante o período que ficou no Amazonas, Milton Lucena fez muitas amizades e ampliou seu leque de negócios. De volta ao Acre, monta uma distribuidora e inicia a venda de mercadorias para o interior do estado.
O primeiro ponto foi alugado, um galpão que faz fundo com a Galeria Meta, no centro de Rio Branco. E não demora muito para sacudir o mercado com o lançamento de um dos produtos mais cobiçados à época: a coca-cola.
– A Coca-Cola já existia em várias cidades, tinha lá fora, mas aqui ninguém conhecia como eu tinha embarcação decidir trazer e abastecer o mercado acreano-, revela.
O investimento na venda de coca-cola começou em 1972 e não demorou muito para Lucena se tornar sócio da fábrica que abastecia Rio Branco, Manaus e Porto Velho. Uma garrafa do primeiro lote do refrigerante produzido em solo acreano, em 1979, é exibida como troféu na sede da distribuidora Lucena.
A façanha de trazer a Coca-Cola e seus produtos derivados para o estado rendeu a muito Lucena, não apenas dinheiro, mas também fama, chegando ao ponto de dois de seus filhos terem sido apelidados dos sugestivos nomes Coca-Cola e Fanta. ’’ O Hamilton é o Coca-Cola e Francisco Milton Junior é o Fanta’’, diz bem humorado.
Lucena também foi o responsável pela introdução do gás de cozinha no mercado acreano. ‘’Fiquei amigo do dono da Fogás em Manaus, então decidir transportar’’, informa.
A procura era tão grande que os consumidores formavam filas quilométricas para esperar a chegada do produto, que vinha pela precária BR 364, a ausência de asfalto dificultava o transporte da carga. Os caminhões demoravam semanas pra chegar na capital.
Na década de 70, o trigo consumido no estado era oriundo da Bolívia, e apesar da boa qualidade da farinha, o abastecimento foi suspenso por questões burocráticas. O espírito empreendedor de Milton Lucena mais uma vez não falha, e ele começa a abastecer o mercado com trigo produzido no Brasil da marca Vitória Régia.
 Homem de hábitos simples
Desde que montou a sua distribuidora Lucena, em Rio Branco, há 45 anos, Seu Milton mantém a mesma rotina. Chega à sede da empresa, na Avenida Epaminondas Jacomé, às sete horas da manhã e permanece até o meio dia, quando faz um intervalo para o almoço. Retorna às 15h e encerra o expediente sempre às 18hs.
É ele quem recebe pessoalmente sua clientela, conservando a alegria e a paciência de outrora. Num intervalo e outro, uma pausa para ler o jornal e escutar rádio, e assim ficar bem informado acerca dos acontecimentos locais e do mundo.
O relógio de ponto parado e a grande quantidade de mesas vazias revelam que o quadro funcional não é mais o mesmo. ‘’Antes tinha dez, agora são apenas quatro, o necessário para atender a nossa demanda’’, assegura.
O negócio que começou com estivas em geral se restringe atualmente a distribuição de bebidas, refrigerantes e água mineral para o interior do estado. Do tempo de grande movimentação restaram apenas as lembranças.
O cofre onde guardava o faturamento ainda é mantido no local, a vista de todos, entretanto virou artigo de decoração, está vazio, uma medida preventiva em decorrência da crescente onda de assaltos.
-Já fui assaltado duas vezes, mas não levaram nada, não guardo dinheiro aqui. Num dos assaltos, o cara chegou apontado uma arma na minha cabeça, achei que se tratava de uma brincadeira, mas o bandido anunciou: ‘’que brincadeira que nada, quero dinheiro!’’
Para sair da situação, Milton decidiu levar na esportiva, apontou o cofre, abriu as gavetas e disse que os visitantes indesejados podiam levar tudo que encontrassem, mas apesar da peneira realizada, não encontraram nada e fugiram de mãos vazias.
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Preservando o patrimônio
No mesmo terreno, vizinhos a distribuidora, em ambientes separados, funcionam os escritórios dos filhos Odenilton, advogado, e José Airton, engenheiro. Na frente do imóvel, foi erguida a Galeria Lucena, projeto de Airton.
Orgulhoso, ele narra detalhes do processo de compra da área, atualmente avaliada em alguns milhões.
– O ano era 1973, como falei, meu ponto era alugado, e eu iniciei a compra disso aqui quase a força. Eu não podia comprar, mas o Tião Dantas, um dos irmãos do governo Dantinha jogava muito baralho e precisou de um dinheiro alto emprestado, á época algo em torno de 30 contos de réis-, observa.
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O dinheiro era para saldar divida de jogo. Francisco Lucena tinha saldo no Banco do Brasil, onde realizava os depósitos do apurado do dia. Atendendo ao apelo do amigo, vai a agencia e saca o valor para ser pago em prazo determinado.
– Ele me deu um cheque e disse que iria ao seringal Novo Andirá buscar borracha para saldar a divida. Mas que nada! Não chegou no tempo certo e fiquei apertado. Esse dinheiro era para saldar credores em Manaus, onde eu comprava a crédito, então a forma que eu encontrei de receber foi comprar um pedaço do terreno-, explica.
O investimento inicial foi de 130 contos de reis. A divida era de 30 contos de réis, mais 40 contos de mercadoria, era só apertar um pouco e arrumar os 60 contos restantes. ‘’Dei um jeito e paguei’’, diz orgulhoso.
No ano seguinte, Lucena compra a parte de trás do imóvel por 130 contos de reis, restando apenas um pedaço da frente que apesar da preferência dada por Dantinha, ele recusou.
-Me ofereceu por 1.500, não pude comprar, ai ele vendeu para o Zé Maria (Zé Foguinho).Passou uns dois anos, o Zé me ofereceu, com o seguinte discurso: ‘’Rapaz tu pode me chamar de ladrão, aproveitador, mas eu só vendo por 5 mil.’’
Lucena aceitou a proposta e declarou fechado o negocio. Todavia, ainda havia uma área abandonada na parte de trás, tomada pelo mato, que dava acesso ao terreno. Incomodado com a situação decide investigar e fazer proposta de compra.
– Telefonei na prefeitura, na época o prefeito era o Adauto Frota, e descobri que o imóvel pertencia ao município, perguntei se era possível fazer a compra, ao que foi respondido positivamente. Fechei negócio e a área ficou completa.
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Proposta milionária recusada

Anos depois, já na década de 90, o visionário Milton Lucena, recebe uma proposta milionária para se desfazer do imóvel, onde ele investiu grande parte do seu trabalho e de sua família. O valor oferecido foi cinco milhões de reais. A oferta é levada à aprovação da esposa.
– Eu disse vou falar com a minha mulher, porque tudo que é meu é dela, se ela quiser eu vendo-, prometeu. A esposa, porem, optou por deixar a decisão por conta do marido.
Lucena busca então a opinião do filho engenheiro, que a exemplo da mãe, não quis influenciar o pai, mas fez a seguinte revelação: ‘’ Se quiser vender, a gente vende, mas se não quiser, eu tenho um projeto para isso ai’’. Assim surgia a Galeria Lucena, que junto com outros imóveis, assegura renda a família.
O reflexo da crise
E como um homem que chegou por essas bandas na condição de soldado da borracha e com vasta experiência no setor do comercio, avalia a crise que afeta não apenas o estado, mas o país, e por que não dizer o mundo.
– A gente está sentindo realmente o reflexo dela. As vendas diminuíram porque as pessoas não podem comprar. A gente vende a metade do que vendia antes. Fui obrigado a reduzir a quantidade de funcionários porque não queria comprometer os seus salários. Quem trabalha quer receber, não é? -, questiona.
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Uma vida dedicada ao trabalho e a família
Por uma questão de ética profissional, não perguntamos a Lucena em quanto está avaliado seu patrimônio, mas estima-se, que já contabilize alguns milhões. A contribuição dada por este comerciante e sua família ao estado do Acre e sua gente, porém, é incalculável.
Uma vida dedicada ao trabalho e a família. Católico praticante, freqüentador assíduo da missa na Paróquia Santa Inês, ele se declara um homem feliz e realizado e viciado no que faz. Além dos cinco filhos Biológicos, ele e Odete adotaram mais uma menina, Maria Eva.
Não costuma tirar férias, gosta mesmo é de trabalhar. As poucas viagens que fez conta nos dedos. Lembra-se especialmente de três: o retorno a Quixadá, sua cidade natal, no estado do Ceará e duas viagens a São Paulo.
– Sei das minhas obrigações, gosto de estar aqui, trabalhando, a minha família está aqui e é assim que quero terminar meus dias’’, finaliza.

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