quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Leitor viajante encontra no Acre "um outro mundo, completamente estanque e original" A viagem pelo Acre teve início no município de Cruzeiro do Sul, de onde seguiu para Rondônia, Amazonas e Boa Vista, capital do estado de Roraima.

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O site Zero Hora publicou nesta quarta-feira (18), o relato de Armando Boese Azambuja, um leitor do Viagem, seção do próprio site, que tem 61 anos. Ele é médico e conhece 94 países.
Em seu relato, ele conta que em maio de 2014 vai fazer a Transiberiana. A viagem pelo Acre teve início no município de Cruzeiro do Sul, de onde seguiu para Rondônia, Amazonas e Boa Vista, capital do estado de Roraima.
Deste ponto, o médico continuou a viagem rumo à Serra do Tepequém e daí ao Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, na Venezuela, passando pelo Monte Roraima, onde acampou no topo.
Confira sua visão sobre as terras acreanas:
“Cheguei ao hotel, em Cruzeiro do Sul. É um hotel simpático, quase no centro da cidade. Estão construindo um anexo que, pelo visto, será bem luxuoso. Está bem situado, na parte alta da cidade, a uns 700 metros da praça da Matriz. Escolhi um quarto estrategicamente posicionado com uma bela vista para o rio. Ali passava horas, vendo o intenso fluxo das catraias indo e vindo pelo rio Juruá.
Esta região concentra três cidades ligadas por um anel rodoviário: Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul. A BR 364 tem uma ramificação de chão batido precariamente transitável até a localidade de Boqueirão da Esperança, na Serra do Divisor, onde o Brasil faz fronteira com o Peru. Todos os outros acessos às inúmeras localidades são exclusivamente feitos pelo transporte fluvial.
Cidades como Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Jordão, estão perdidas no meio da selva, tendo o rio como único meio de transporte, ou pequenas pistas de pouso, onde monomotores se aventuram a alcançar.
Vale a pena pegar um mapa do Acre; não vale o Quatro Rodas, pois é muito incompleto e ignora muitas localidades do Brasil. Prefira, por exemplo, o "Mapograf". Repare com atenção o formato do Acre: lembra vagamente dois seios, ou dois triângulos lado a lado, tendo suas bases no Amazonas e suas pontas cravando-se no território peruano.
Siga em direção a estas pontas; irá encontrar estas cidades mencionadas, praticamente em total estado de isolamento. Elas têm suas origens em antigos seringais e foram redutos de valentes brasileiros que perderam suas vidas defendendo suas terras e sua subsistência, numa região ignorada e esquecida pelo governo central.
Aqui vale a pena estudar um pouco a história do Acre, principalmente a Revolução Acreana. Este mapa e estas comunidades perdidas num Brasil pouco conhecido, locais intactos da nossa flora e fauna, me levaram até lá.
Motivo pelo qual ficava horas e horas no porto do rio Juruá, vendo, ouvindo e pensando, enquanto a vida ribeirinha fluía no seu duro dia a dia, no carregar e descarregar provisões nas precárias embarcações que os levaria aos seus lares, nos mais remotos rincões do estado.
Perguntando aqui e acolá aos capitães das embarcações sobre como era a vida a bordo, o tempo de viagem, alimentação e condições de navegabilidade, vou ficando de alma lavada e um prazer imenso de ir descobrindo aos pouco que, num mundo onde se apregoa a rapidez das comunicações e facilidades, vejo aqui um outro mundo, completamente estanque e original.
Cruzeiro do Sul é uma cidade pequena, de um povo amistoso e atencioso, embora extremamente calado, algo que me chamou a atenção: mesmo em aglomerados, não fazem algazarra.
Passei nesta cidade o feriado da Padroeira do Brasil. Na esplanada principal, em frente à Catedral, fizeram um grande bingo para onde, pelo que imagino, fluiu toda a população da cidade. Foi uma grande festa, mas o silencio imperava.
Ficava observando casais de namorados nas praças, restaurantes, enfim, famílias, e não ouvia grandes falatórios. Riam, comiam e falavam pouco. Noutra oportunidade, subindo o rio Juruá com um barqueiro que no passado tinha sido seringueiro, perguntei por que eles eram tão quietos. Para minha surpresa, sua resposta foi: ‘O que vou falar, não tenho nada para contar...’.
Investigando um pouco mais, fui sabendo que pelo tipo de vida que estes homens têm, levantando às duas horas da madrugada, se embrenhando na mata para retirar o látex e voltando só no final da tarde, sempre sozinhos, achavam seu ‘mundinho’ muito pequeno e sua vida muito insípida. Ledo engano; após insistir, escutei relatos comoventes e arrebatadores das vidas destes homens na mata.

Tanto de seringueiros, garimpeiros, madeireiros e barqueiros. Relatos comoventes, aventuras fantásticas dignas de filmes, que quando me atrevo a reproduzir, as pessoas me olham meio desconfiadas, pois acham que estou a aumentar ou inventar. Basta apenas comprovar, vá e ouça”.

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