quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Resgatando as memorias de Santa Rosa do Purus

 Foto: Rio Purus de tantas histórias, Rio dos regatões, que dava assistência
aos seringueiros e ribeirinhos, rio dos caboclos que desbravaram a nossa amazônia. 
 Foto: Cólera uma doença que matou muitas pessoas inclusive indígenas.
No Município de Santa  Rosa do Purus o susto da doença deixou muitas famílias doente
e muitos vieram a óbito devido as dificuldade de transportes para resgatar os povos ribeirinhos  
 Foto: Os costumes dos povos Indígenas deve serem respeitados
foram eles os primeiros a habitarem nesta região, e até hoje preservam  as matas
evitando a exploração do homem branco.   
 Foto: Os desfiles dos alunos  eram feitos improvisados, pois não existia 
pavimentação de Ruas, os desfiles eram realizados nas Ruas coberta de capim.
 Foto: a representação dos desfiles representavam os povos Indignes, povos 
que até hoje representam maioria na população de Santa Rosa do Purus 
Foto: Crianças que hoje representam nosso Município, muitos já formados
em professores e em outras faculdades diferente, são gente de Santa Rosa do Purus
que merece mais atenção e o respeito das autoridades deste Município
 Foto: Escola Municipal de Ensino Fundamental Antônia Fernandes de Moura
aqui foi onde deu inicio a Educação de Santa Rosa do Purus 
 Foto: Vereadores de Santa Rosa do Purus e autoridades, como na época
o Senador Tião Viana, reunidos com um só objetivo, trazer o desenvolvimento
para o Município de Santa Rosa do Purus  
 Foto: Ex-Prefeito José Altamir, no centro o Vereador Julinho e o Ex-Governador
Jorge Viana, pessoas, que muito lutaram para o crescimento de Santa Rosa do Purus 
Foto: A paisagem  de um Rio que nasce na República Peruana
e desaguá no mar, Rio de tantas  gente, Rio de todos nós

Onde e como vivem os Índios isolados 
Nas cabeceiras dos rios Acre, Iaco, Chandless, Purus, Envira e Juruá, nas terras firmes, que nunca alagam devido à proximidade da cordilheira dos Andes, antes da chegada do homem branco, habitavam inúmeros povos indígenas, em sua grande maioria, de etnia Pano e Aruak. As aldeias, dos que não eram nômades, eram construídas longe da calha dos rios maiores, nas cabeceiras de pequenos igarapés, isentos das nuvens de piuns, maruins, catuquis e carapanãs que infestam as margens dos grandes rios. A moradia longe das águas grandes, ao longo do tempo, cria uma cultura de terra firme, de caçadores que tem mais intimidade com a mata do que com os rios, de povos que não usam canoas, que só cruzam os rios na época da seca, limitando sua ocupação territorial na época das chuvas.
A fertilidade das terras firmes das cabeceiras propicia aos povos sedentários a possibilidade de desenvolver uma agricultura muito rica, composta basicamente de banana, mandioca, amendoim, cará, inhame, várias espécies de batatas, milho, urucum, algodão e tantas outras domesticadas e melhoradas pelo cultivo seletivo. A caça farta o ano todo e o peixe na época da seca, aliados aos produtos cultivados, proporcionou a estes povos condições de guardadas as devidas proporções, terem uma densidade populacional alta.
A maioria desses índios utilizava o caucho, um elastômero natural, retirado da árvore do mesmo nome, produzindo vários artefatos. A descoberta pelo homem branco desta matéria prima, que poderia ter milhares de utilidades, vai modificar radicalmente suas vidas. A exploração do caucho é predatória, pois as árvores são derrubadas para serem sangradas, excetuando-se as mais novas que eram aneladas (retiro da casca em forma de anel, no caule). Com o início da exploração caucheira o território de vários povos indígenas foi invadido e houve reações. Os caucheiros utilizaram vários grupos contatados, principalmente os Ashaninka, Kaxinawá e outros povos indígenas para expulsar e matar todos os grupos que iam sendo encontrados pela expansão da frente caucheira.
Tivemos oportunidade de trabalhar durante nove anos com o povo Jaminawa, nas cabeceiras do rio Iaco, e tivemos o privilégio de ouvir os relatos dos mais velhos, todos remanescentes do tempo em que viviam sem contato com o homem branco, de como foi o encontro com os caucheiros, e o que isso representou em suas vidas. Este povo vivia nas cabeceiras das bacias do Juruá e Purus. O primeiro contato que tiveram com um homem branco foi através de um rifle 44 Winchester, o famoso papo amarelo, usado pelo 7º de Cavalaria do General Custer para matar índios nos Estados Unidos, testado e aprovado, mudou de mãos e passou a ser largamente usado contra os índios da Amazônia Ocidental.
O povo Jaminawa perdeu uma quantidade incalculável de homens, mulheres e crianças, massacrados pelos caucheiros e começaram a caçá-los para roubar rifles 44 e poder guerrear de igual para igual. Segundo eles, quanto mais caucheiros matavam, mais apareciam, como bandos de formigas. Com a população de guerreiros reduzida, com pouca comida, pois não havia tempo de cultivar os roçados, correndo de um lado para outro, sempre fugindo, resolveram se entregar, nas cabeceiras do rio Purus, a um caucheiro peruano.
O sarampo e a gripe acabaram matando mais que o rifle 44. A população foi reduzida para menos de 300 pessoas, de um povo que podia ser contado aos milhares. Trabalharam muitos anos para este caucheiro e, cansados de serem explorados, mudaram-se para o rio Iaco, para serem explorados pelos patrões no seringal Petrópolis, em território brasileiro. Uma pequena parte do povo Jaminawa não se entregou e talvez viva até hoje, isolada, entre as cabeceiras do Purus e Juruá, ocupando parte de seu antigo território entre o Brasil e o Peru.
Os Jaminawa foram encurralados por duas frentes. Uma formada por caucheiros peruanos, descendo os rios, e a outra, pela empresa seringalista, subindo os rios do lado brasileiro. Esta compressão os levou ao contato e quase à extinção. O mesmo ocorreu com os Kaxinawá, Madijá (Kulina), Manchineri, Apurinã, Katukina, Yawanawá e outros que entraram em contato, além dos povos que foram extintos antes de entrarem para nossa história.
Então como é possível que, ainda hoje, existam povos isolados nessa região?
É um conjunto de fatores que, raras vezes na história, conspiraram a favor dos grupos que conseguiram se isolar nas cabeceiras dos rios.
-A exploração do caucho, por ser predatória, é itinerante e passageira. Esgotados os recursos naturais, ela migra para outras áreas. Os índios que conseguiram se esconder dos caucheiros por um tempo, voltaram a ocupar seus antigos territórios.
-Subindo os rios, a empresa seringalista dizimava ou subjugava os índios em seu caminho. Dizimava, quando era preciso ampliar a produção de borracha dos seringais nativos. Subjugava, quando os preços da borracha despencaram no mercado internacional, e a empresa seringalista precisou produzir alimentos (que antes eram importados) usando a mão de obra indígena. Os índios agricultores iriam abastecer os seringais de cereais, caça e peixe. Matá-los, neste novo quadro, dava prejuízo. É graças à queda do preço da borracha no mercado internacional que vários grupos indígenas da Amazônia ocidental sobreviveram.
Nas cabeceiras dos rios havia pouca ou nenhuma seringueira. Os seringais se estenderam até onde existia a espécie, deixando um território entre os seringais e as cabeceiras dos rios, que se constituiu em áreas de refúgio para os povos isolados.
Os seringais dos altos rios que faziam limite com as áreas ocupadas pelos povos isolados mantinham a seu serviço grupos de homens especializados em matar índios “brabos” que, por sua vez, tentavam retomar seus antigos territórios. Eram as famosas correrias, matanças organizadas e sistemáticas, financiadas pela empresa seringalista.
Após a segunda guerra mundial, o preço da borracha cai ano após ano, até que no final da década de 1960 e na de 1970, grande parte dos seringais foi vendida a grupos agropecuários do sul do país. As fazendas que se instalaram nos altos rios fracassaram. A guerra aos povos isolados termina por falta de financiamento: ninguém fornecia armas nem pagava mais nada para se matar índios.
Os povos isolados, livres das matanças e ameaças, aos poucos se recompõem populacionalmente e iniciam a retomada de seus territórios tradicionais. Mas encontram, fixados neles pela empresa seringalista, outros índios, que usam roupa, espingardas e moram em casas como os antigos invasores brancos.
É o caso dos Kaxinawá do rio Jordão, dos Ashaninka e Kulina do Envira, dos Jaminawa, dos Manchineri do rio Iaco e de outros povos. A proximidade e a disputa territorial iniciam nova fase de conflitos de índios isolados versus índios contatados, principalmente nas cabeceiras dos rios Iaco, Envira, Tarauacá, Jordão e Juruá. Os isolados, retomando seus territórios tradicionais, e os contatados, achando que os brabos deveriam ser amansados, ou mortos, reproduziam o mesmo discurso de seus antigos patrões seringalistas.
Os conflitos com índios isolados se acirraram entre 1986 e 1987. O fato gerou reivindicação dos Kaxinawá do rio Jordão e Ashaninka do Envira à FUNAI, para a criação de uma frente de atração visando “amansar os brabos” e pôr fim aos conflitos.
Em 1988, a FUNAI criou o Departamento de Índios Isolados que traçou uma nova política para esses povos. Fundamentalmente, esta política se resume em protegê-los em seus territórios, sem nenhum contato. Foi criada a Frente de Atração Rio Jordão - renomeada Frente de Contato Envira e, a partir de 1997, Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira - para tentar por fim aos conflitos envolvendo povos isolados, de um lado, e de outro, Kaxinawá, Kulina e Ashaninka.
O sertanista José Carlos Meirelles assumiu a chefia da frente de proteção, em 1987, e lá permanece até hoje. Os conflitos foram controlados quando os Ashaninka, Kulina e Kaxinawá, orientados pelos integrantes da frente, compreenderam que os “parentes brabos” também tinham direito de continuarem isolados.
A inovação da nova política indigenista deu-se em função da FUNAI regularizar terras para os povos isolados, sem contatá-los. Nas cabeceiras dos rios Envira e Tarauacá, existem hoje três terras indígenas para povos isolados: Kampa e Isolados do Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira. Esta última está em fase de demarcação física no decorrer deste ano de 2008.
A três terras indígenas somam 636.384 hectares. Nelas habitam quatro povos isolados distintos: três sedentários e um nômade. O trabalho da Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira se resume na preservação do território dos isolados, mantendo-os livres para decidir seu futuro e modo de vida. Se o contato vier a ocorrer, não será por iniciativa da frente.
Como resultado dessa política, esses povos continuam isolados e aumentaram consideravelmente sua população nos últimos 20 anos. Eles possuem grandes roçados e diferentes conjuntos de malocas.
A autodenominação dos povos isolados permanece, portanto, desconhecida. No entanto, alguns desses povos são chamados por outros índios com diferentes denominações: Masko pelos Jaminawa e Manchineri do alto rio Iaco; Amiwaka pelos Ashaninka (ou Amoaca pelos não índios); Yaminawa pelos Kaxinawá; e/ou “brabos” pela população regional.
Dado a falta de informações etnográficas, esses povos começam a ser chamados também de “invisíveis”.
Do lado brasileiro, no Estado do Acre, praticamente toda fronteira é constituída por Áreas Naturais Protegidas: terras indígenas e unidades de conservação de proteção integral e de uso sustentável.
Infelizmente, nos últimos três anos os integrantes da frente Envira constataram a exploração ilegal de madeira no lado peruano da fronteira. Foram recolhidas pranchas de mogno, tambores de óleo comestível, frascos de hipoclorito de sódio, frascos de corantes para marcação de madeira, entre outros materiais flutuantes, descendo o rio Envira nos repiquetes característicos da época chuvosa.
As cabeceiras do Envira voltaram a ser exploradas pelos peruanos, depois de um século, com a extração de mogno e outras madeiras nobres. Essa exploração ilegal em grande escala na fronteira peruana está provocando um processo de migração forçada de outros grupos isolados para as florestas do Acre. Este fato foi comprovado em sobrevôo realizado nos dias 28 a 30 de abril de 2008.
Essa migração começa a gerar conflitos entre índios e seringueiros do lado brasileiro. O povo Masko usa como área de deslocamento, na época do verão as cabeceiras dos rios Iaco, Chandless, Purus, Envira e Juruá. Com a ocupação do território Masko por madeireiros peruanos ilegais, este povo está ocupando, do lado brasileiro, território de outros índios isolados e contatados.
Além disso, instalou-se paralelamente uma indústria de venda de carne de caça e pele de animais comercializados em Pucalpa, às toneladas. A pesca é praticada até com dinamite nos remansos das cabeceiras dos rios
A grande região formada pelas cabeceiras de três dos maiores tributários do rio Amazonas, os rios Madeira, Juruá e Purús em território peruano somada à região de fronteira do Estado do Acre é um complexo de mais de dez milhões de hectares. Argumentos para sua preservação não faltam. Ela abriga as cabeceiras do Madeira, Juruá e Purus, índios conhecidos de várias etnias, brasileiros e peruanos, cidades fronteiriças, a maior população de povos isolados do planeta, além de uma diversidade única por ser a transição da Amazônia para a Cordilheira dos Andes.
Conversações entre a Funai e instituições peruanas, organizações não governamentais, organizações indígenas e antropólogos preocupados com a questão vêm ocorrendo. Mas os conflitos existentes ao longo da fronteira entre Brasil e Peru, decorrentes da exploração madeireira, mineração, prospecção de petróleo e gás, e narcotráfico, exigem ações diplomáticas urgentes entre os governos dos dois países.





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