segunda-feira, 31 de maio de 2010

A História de Pedro Biló




A história do Pedro Biló é outra história interessante e triste. Pedro Biló era um personagem aqui do Acre famoso por matar índio. Ele era matador de índio profissional. Ele chegava a pegar mulheres índias pra vender pros seringueiros, pra servir sexualmente. Essa história me doía os ouvidos. E tinha uma lenda de que ele sumia, que ninguém conseguia prender ele. Muita gente também não conhecia o rosto dele. Eu estava atrás dos índios e como a Funai não me autorizava, eu subia os rios sem me identificar, sem dizer que era da Funai. Eu dizia que era pesquisador. E eu subindo o rio Envira, eu sabia que ali era o habitat do Pedro Biló, fui dormir num seringal, abaixo da fazenda Califórnia. Fui dormir na casa de um homem, e o homem era o Pedro Biló. Passei três dias na casa dele. Logicamente, foram três dias ele me contando histórias. Eu armei minha rede ao lado da rede dele pra escutar as conversas. Vi os hábitos dele, onde dormia, quando dormia. Ele usava o seguinte método: tinha uma casa na frente, onde as pessoas dormiam, e uma casa atrás. Ele ficava sempre nessa casa atrás porque quando chegasse alguém procurando por ele, ele entrava no mato e sumia. A casa dele ficava numa curva. Pra pegar ele, não podia ir subindo, tinha que vir descendo, com motor desligado. Porque se fosse subir o rio ele ouvia o motor. Eu fiz um mapa de onde era a casa dele, e vim aqui arrumar a polícia pra ir lá buscar ele preso. Pra eu convencer a polícia de mandar duas pessoas comigo, foi difícil. Nós fretamos um avião daqui pra Feijó. Quando o avião levantou vôo o Jailson, da Polícia Federal, disse assim: nós não vamos pra Feijó. Pra onde nós vamos? Vamos pra Fazenda Califórnia. Aí o cara disse, não eu não vou. Volto daqui. Aí o Jailson puxou a pistola e disse: você vai. Praticamente seqüestramos o avião. Chegamos na Califórnia, desceram com metralhadora. Eles tinham um caminho, dentro da fazenda Califórnia, que podiam avisar a pé o Pedro Biló. Então eu tinha que pegar logo um barco, pra chegar primeiro. Aí eu falei pro gerente da fazenda: eu queria que tu me arrumasse, me alugasse um barco. E ele disse não, que tava precisando do barco. E o Jailson disse: pois eu estou requisitando o barco. Você vai até onde? Não interessa. Então deixamos pra descer à noite e acabamos pegando o Pedro Biló deitado na rede. Trouxemos ele até Feijó, depois trouxemos pra cá. Mas aí a Igreja ficou contra mim. O Pedro Biló era uma lenda aqui e eu ao invés de prender o mandante, estava prendendo o executor, um homem humilde. Mas ele confessou, foi instruído pelo advogado dele, que todos os assassinatos que ele tinha feito, tinha feito há 35 anos. Então os crimes já tinham prescrito. Embora o crime contra o índio não prescreva, e eu tentei caracterizar o crime de genocídio mas o juiz federal da época não aceitou e mandou soltar ele. Então eu fiz um pacto com seu Pedro Biló. Porque logicamente ele ia me matar. Aí eu pedi pra Polícia Federal me botar dentro da cela, junto com ele. Eu falei: eu sei que o senhor vai querer me matar, vamos fazer um acordo. Você que é um homem lendário, que tem mania de sumir, eu queria que o senhor sumisse pra que nós nunca mais nos cruzássemos. E ele sumiu realmente. Terminou morrendo lá em Manaus. Essa é a história do Pedro biló. Eu tive a infelicidade de conhecer, talvez, o último matador de índio profissional do Acre. Mas prendi ele.

4 comentários:

  1. João Narcisio! Bom dia.
    Gostaria de entra em contato com vc sobre essa história, é possível?
    odairleal@gmail.com

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  2. Meu amigo tem o msm nome

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